sábado, fevereiro 12, 2005

Radicalismos e fanatismos

Sempre pensei que o vazio de causas na minha geração era uma forte desvantagem que tinhamos relativamente aos nossos pais, mas nunca pensei que fosse tão negativa como de facto se tornou nos dias de hoje.

Há 31 anos atrás seria muito mais fácil compreender que algumas pessoas se encontrassem no desespero, por não se lhes dar a justiça às palavras, ou mesmo por essas mesmas palavras provocarem a quem as proferiu, a perseguição das autoridades.

Após a revolução de 25 de Abril de 1974, foi o tirar a barriga da miséria. Muitos dos que eram perseguidos, passaram a perseguir exactamente pela mesma razão que os levou em tempos a fugir ou a sofrer as consequências de não o fazer ; «a expressão das suas ideias e credos».

Hoje em dia todos somos livres de expressar a nossa opinião, ou será que não?

Na minha opinião (e espero não levar porrada por torná-la pública) penso que não somos livres de expressar o que pensamos, e muito menos de fazer valer os nossos valores e crenças. Deixou de existir o lápis azul e a perseguição vermelha, mas eu não me sinto mais livre por isso.

As pessoas continuam a censurar, e a ser censuradas, isto porque nos é dificil aceitar a diferença. O que realmente piorou neste aspecto é que muitos dos que se classificam como protectores das liberdades são os que mais atentam contra ela.

Os que se classificam como elite de pensamento, e que pensam muito além do que o normal "portuguesinho" possa algum dia alcançar, os que se indignam com a palavra "preto" ou "comuna", classificam ao primeiro sinal de suspeição o próximo como "racista" ou "fascista".

As pessoas simplesmente não sabem aceitar as diferenças, e à falta de verdadeiras causas agarram-se a causas bem mais ridículas extremando-as e limitando-as ao que apenas essas mesmas pessoas esperam delas.

É o caso do futebol, eu como portista a viver em Lisboa, sinto-o a toda a hora.
Optei pelo clube que optei, sem razão aparente porque a isso se chama clubite ou paixão. No entanto não são poucas as vezes que, quando tento ir a um estádio em Lisboa com a camisola do meu clube, sou insultado, muitas vezes perseguido e por sorte nunca fui agredido. Estas pessoas que o fazem são por vezes alguns idiotas sem grande capacidade de intelecto ou mesmo de reflexão para poder perceber que sem nós (o adversário) o futebol não tinha piada nenhuma. Mas mais grave que isso, algumas destas pessoas quando observam em documentários ou filmes cenas de perseguição dos nazis aos judeus ficam repugnadas e incrédulas com a razão pela qual aqueles desgraçados eram perseguidos, insultados, maltratados e em ultimo estágio mortos.



Como apelidamos alguém que se diz feliz com a democracia e depois despreza ou menospreza a nossa ideologia ou escolha partidária apenas e só porque não é a dela.

Outro problema que penso que afecta e muito o nosso país foi a transformação da politíca partidária numa espécie de circo futebolístico, onde os dirigentes partidários cada vez mais assumem um papel de criação de polémica (com o claro objectivo de afastar gente séria e honesta do debate politíco), e pouca discussão de ideias e acções.
Esta nova forma de viver a política em Portugal está a encaminhar a realidade atrás referida relativamente ao futebol para o mundo da política. A intolerância relativamente à livre escolha de cada um.

Cada vez mais observo no dia-a-dia, defensores de partidos e políticas dogmáticos, isto é, que não se questionam quanto ao que defendem, "é assim e concordo simplesmente por ser aquela cor".

Aqui mais uma vez deparo-me com a intolerância relativa à minha escolha. Há um número alargado de pessoas, que simplesmente não toleram o facto de eu estar mais inclinado a votar Bloco de Esquerda, do que CDS/PP ou PPD/PSD ou ainda PS.

É mau ser "comuna", mas o problema é que eu nem sequer o sou, aliás sou uma pessoa apartidária mas com valores, muitos dos quais são defendidos pelo partido de Francisco Louçã, muitos outros discordo profundamente mas por isso é que não existe o meu partido mas sim o Bloco de Esquerda.

Tentar explicar sequer o que me leva a votar neles nas próximas eleições, é um acto de masoquismo, pois poucos me levariam a sério, eu simplesmente seria um dos maluquinhos que vota no Bloco (Viva a liberdade de escolha!!!!).

Todos os dias alguém, ou alguns tentam privar-nos dessas escolhas, moralmente ou com uma piadinha, ou com uma desvaloirização das mesmas e logo de nós próprios "eu existo, tu não".

Cabe-nos pois tentar mudar, no pouco a pouco das reações que temos com os outros, esta forma de nos relacionarmos com o próximo para podermos de facto defender e assumir a liberdade de todos. "Posso não concordar contigo, mas se te ouvir terei a oportunidade de saber algo que anteriormente desconhecia".

Viva a liberdade, a verdadeira liberdade, eu luto por ela, por vezes até comigo mesmo.

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