quarta-feira, abril 06, 2005

Helena Matos sabes tanto sobre nós jovens...

«Não deixa de ser fascinante matéria de estudo comparar o vigor e a tenacidade posta na compra dos bilhetes dos U2 pela mesma geração de jovens cujos professores dizem que eles não lêem porque os livros são caros.
Que, pelo menos até ao passado ano lectivo, tinha de abandonar as faculdades porque não podiam pagar as propinas.
E cujos corpos e almas segundo nos andam a garantir há anos psicólogos e pedagogos ficariam profundamente traumatizados caso tenham de se esforçar pelo que quer que seja.
Nem sei o que seria se tivessem de dormir ao relento a noite mais fria do ano para obterem, por exemplo, uma bolsa de estudo.
Felizmente que foi para os U2. Assim ninguém se traumatizou.»

Helena Matos in Público


Permita-me explicar a Helena Matos que a maioria dos jovens que comprou bilhete para este concerto, concerteza têm entre os 20 e os 40 anos, a maioria nem sequer estuda (e isto são estatísticas nacionais e não previsões minhas), que a mim como estudante universitário, custa-me de facto pagar 880 euros de propinas, e comprar livros que custam entre 50 e 150 euros, pagar impostos (pelos meus pais) e por isso não receber bolsa enquanto que outros, cujos pais fogem aos impostos, recebem-na pra gastar em telemoveis, tendo ainda a possibilidade de pagar metade do que eu pago em propinas (440) e ainda fazê-lo a 10 prestações, ao contrário das minhas 4 (220, 440, 220).
O que me custa não é ver pessoas, a passar ao relento a noite mais fria do ano por um bilhete, o que me custa de facto, é que neste país isto seja possível, e que ninguém se questione, do porquê de se levantar tantas objecções à venda livre de medicamentos , e ninguém se revolte para a forma como o consumidor é tratado em casos como este (bombas de gasolina para Tv fazer noticia dos parolos que esperam mais de um dia por algo que poderia ser feito na normalidade).
Se tiver dúvidas quanto à vontade de pelo menos passar uma noite muito fria ao relento por benesses, estou disponível para lhe servir como case study, e não peço menos carga fiscal ou propinas mais baixas, peço apenas e só, maior qualidade de ensino, na docência da minha escola superior, na forma como esta está organizada e na lacuna que ninguém consegue minimizar que é a ligação das universidades aos meios empresariais (não me falem dos estágios, essa nova forma de escravatura, onde recebemos o que eles querem e nem férias, nem seguros médicos, nada de direitos, só deveres).
A sra. Helena Matos talvez pudesse explicar qual a razão, pela qual tanto jornalista se indigna quando é atacado por outrém, mas que não se questione relativamente ao facto de cada vez mais esse trabalho estar a ser mal desempenhado, basta ver que hoje em dia conta mais ter 10 pivots em Roma a cobrir a morte do Pápa, do que explicar os seus feitos enquanto desempenhou a função de Santo Padre, ou de explicar quem são os possíveis sucessores, que papel poderão assumir na sociedade mundial, que novas tendências se esperam dele e da igreja.
Não ao invés disso, preferimos ver quantos milhares estão nas filas à espera de ser filmados, à espera que lhes perguntem há quanto tempo estão ali, ou mesmo à espera do momento de glória que é ser visto por familiares e amigos na Tv, a deslocar-se numa maca para o hospital.
Talvez a culpa não seja tanto dos jovens, talvez mesmo a culpa seja de quem dá importância a 30 ou 40 pessoas a noite toda à espera de um bilhete, e esquece-se que em casa ou em call centers, ou McDonalds muitos milhares esforçam-se para poder viver minimamente bem, poder continuar a estudar contrariando a lei natural da vida, que seria em jovem ser-se livre , feliz e despreocupado.
Quer um case study sr. Helena, na minha turma somos 20 e apenas um foi para a porta da bomba de gasolina esperar ao relento, de resto somos só 19, aqueles 19 que as tvs não encontram interesse porque apenas passam noites em branco quando lutaram para entrar num ensino público tendencialmente gratuito (880 euros não são assim tão tendencialmente gratuitos), e passam noites em branco para acabar os seus cursos, e para lutar por uma vida melhor do que a que os seus pais tiveram.
Estude isso, estude o porquê de nos questionarmos sobre o vazio cultural , intelectual e civico dos jovens de hoje.
Devemos questionar do porquê da falta de informação e acesso à cultura que esses mesmo jovens têm, do facto de bons jornais como o público cobrarem até para se visitar a sua página na internet, perguntem-se do porquê de Portugal ser um dos países onde a mão de obra qualificada possui menos importância ao nível do factor L da nossa economia, perguntem-se do porquê dos preconceitos relativos a nós jovens, quando foram vocês que nos educaram, foram vocês que bloquearam o nosso país, foram vocês que permitiram que o sistema nacional de ensino, saúde e impostos estivesse à beira da ruptura, foram vocês que formaram os reality shows, o shit TV, a televisão generalista que nos presenteia com programas de péssima qualidade de manhã à noite, questione-se a si primeiro, e depois ponha em causa aqueles que não conhece e daqueles que desprezou o esforço e o sacrificio para se tornarem melhores pessoas, profissionais e cidadãos.
Eu questiono muitas vezez esse esforço, porque vivo numa sociedade criada por uma outra geração, a geração das passagens administrativas, a geração do factor cunha, a geração do papel minimizador do estado mas ao qual posso enganar e retirar aquilo a que não tenho direito, a sociedade dos hiper-consumos, dos super-grupos económicos, e todos esses herois que claro nunca me poderão mostrar o quão imbecil é esperar mais de 24 horas por um bilhete cujo espectáculo durará menos de 3.
Bem haja Helena Matos, são pessoas como você que me fazem revoltar e ganhar ainda mais força para ter sucesso numa sociedade que não reconheço como minha, mas onde tenho que viver e sobreviver.

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