quarta-feira, outubro 12, 2005

I need your lovin' like the sunshine...

Lembro-me de andar no 7º ou 8º ano da escola e de na altura uma pessoa que estimava muito ter falecido.
Durante um teste de Inglês, decidi então na parte da composição escrever algo que pudesse ajudar-me a expressar a mágoa pela primeira perda real da minha vida. Escrevi sobre ela, sobre o carinho que lhe tinha mesmo sem existir qualquer relação familiar entre nós, e no fim dediquei-lhe um refrão que ouvia muito na rádio- "And I miss you
Like the deserts miss the rain ".
A professora na altura, nem me recordo do seu nome, era ultra fã dos Everything but a girl, e deu-me uma grande nota na composição, por além de ter citado uma das suas músicas favoritas, ter percebido que aquele texto estava repleto de emoção e dor.

Pode parecer estranho, mas à data terá sido talvez a única demonstração na escola perante um professor do que realmente sentia. Desde que havia mudado para a Escola de Carcavelos que tinha apanhado bons e maus professores, mas senti que nunca me entenderam, e eu também nunca fiz um esforço para tal.

Depois foram os meus avós, primeiro a avó Clarisse, depois o meu avô Esmeraldo e por último a minha avó Julia. Sinto a falta deles todos, relembro-me de momentos marcantes que passei com eles. Recordo-me do ultimo sorriso que vi do meu avô como se fosse ontem, à porta de casa dele, com lágrimas nos olhos e um sorriso do tamanho do mundo na cara. Duvido que em toda a minha vida vá encontrar um outro homem que tenha a bondade, a simplicidade e a honestidade do meu avô. Lembro-me de numa das muitas felizes férias que passámos na sua casa em Tomar (simplesmente perfeito, os cinco primos juntos, com um enorme espaço rural para brincar e gastar energias de uma infância que por 15 dias era inesquecivel).

Quando tinha uns 4 ou 5 anos disse ao meu avô que determinado táxi que aparecia numa telenovela da noite na televisão dele tinha outra côr, diferente do táxi que aparecia na minha.

Nas férias seguintes o meu avô juntou algumas poupanças e comprou uma televisão Grundig a cores. Assim que cheguei a sua casa mostrou-me cheio de orgulho e felicidade a nova televisão, onde eu poderia ver de novo as mesmas cores que via quando estava em casa dos meus pais.

Lembro-me de o ver limpar o tanque para nós podermos ir pra lá chapinhar e nadar, tudo à mão, mesmo sabendo que sofria terrivelmente das costas. Lembro-me como se sentia feliz quando o rodeavamos para ouvir as histórias dos Lobisomens e das Bruxas, lembro-me de nos levar ao Leite, para ouvirmos os disparates e a vulgaridade da linguagem do pastor, e como se ria ao ver-nos espantados a ouvir aquelas asneiradas todas vindas da boca de um adulto. Íamos à fonte buscar a água, e quem se comportasse bem, poderia ir na parte de trás da carrinha, onde os bonés eram levados pelo vento que a velocidade da carrinha provocava.

O meu avô ligava a sua serra electrica, em tardes de calor de Agosto, só para cortar os pequenos ramos de oliveira que apanhávamos no meio da lenha, e transformá-los em potentes armas mortiferas do imaginário infantil, e lá iamos nós brincar aos gangsters e policias, aos índios e aos cowboys.

O meu avô plantou uma oliveira no meu 7º aniversário, foi a única prenda da minha infância que jamais me esqueci. Quando me mostrou um pintaínho sem uma pata e cego de um olho, pedi-lhe que mo desse, e assim fez. O pintaínho transformou-se em galinha, deu muitos ovos e nunca, nunca foi morto pra churrasco ou vendido para quem estivesse interessado, por pura e simplesmente ser meu. Creio que ele nunca iria suportar ver a minha desilusão se um dia lhe perguntasse pela minha galinha coxa e vesga, e ele tivesse que responder que a tinha morto ou vendido. A galinha acabou por morrer de velhinha.

Por amar tanto a minha infância em Valdonas, e por amar tanto os meus avós tenho medo de um dia lá voltar. Agora que a casa que nos acolheu foi abaixo, que o tanque deu lugar a uma piscina, a capoeira desapareceu , a datsum azul está velha e na casa do meu tio, e principalmente o amor dos meus avós se resguardou para eternidade no meu coração, tenho medo de encontrar um local totalmente diferente, sem eiras, sem espaço para o jogo da malha atrás da garagem, sem o batatal, sem os preciosismos com que o meu avô arrumava as suas ferramentas, e organizava tudo de uma forma tão própria de quem só tem um fundo puro doce e cheio de amor por todos, até os que lhe faziam mal.

Infelizmente ao meu avô nunca pude dizer adeus, e o quanto o amava antes de ele se ir embora para perto do seu protector em quem depositava tanta fé e esperança, mas hoje deixo aqui o primeiro verdadeiro recado para alguém, e é para ti avô . Se algum dia nos voltarmos a ver vou dar-te o maior abraço que alguma vez dei, e vou agradecer-te por todo o carinho e amor incondicional que me deste a mim e ao meu irmão e aos meus primos. Vou querer saber tudo o que ficou para contar sobre ti, sobre a tua vida, o que te fazia feliz, vou querer ouvir as histórias das bruxas e dos lobisomens, vou querer voltar a andar na parte de trás da tua carrinha Datsum, vou querer ir à água, ao leite e até à missa, porque só agora vejo que a maior riqueza da minha vida és tu e os que como tu sempre me amaram, espero que onde estejas estejas bem, e que sintas orgulho na pessoa que sou hoje. Amo-te muito avô.

4 comentários:

Anónimo disse...

Depois de ler esta carta ao teu avô, so posso dizer que foi o mais bonito e sincero texto que já li escrito por ti, que me tocou de uma forma brutal e que desenterrou memórias e vivências que estavam no fundo do meu coração guardadas...fiquei sem folego.

Pukanina

Anónimo disse...

Pedro, não tenho palavras...
não consigo expressar uma unica palavra que descreva o que senti ao ler este texto e esta preciosa revelação...
Só posso dizer-te OBRIGADA meu filho e sei que só tu saberás quanto esta palavra representa para nós dois...
Tu ainda és mais lindo do que aquilo que eu imaginava, e como sabes tu e o teu irmão foram sempre as coisas mais lindas do mundo.
Que sejas sempre assim meu filho, conserva sempre esses maravilhosos sentimentos, conserva para sempre esse coração enorme que tu tens cheio de amor pelos outros.
Um beijo com muito carinho.
Mãe.

Anónimo disse...

Puto: LINDO! Parabéns!!!

Quem me dera conseguir de vez enquando libertar estes sentimentos e memórias que retenho só para mim e que se calhar necessitava tanto de tirar cá para fora.

OBRIGADO.

Grande abraço e continua assim!!!

Grande abraço do amigo:

RUI CORREIA

Anónimo disse...

Sem palavras..
Lavado em lágrimas..
É o texto mais lindo que alguma vez li. Não pelo jogo de palavras ou por poesias elaboradas, mas pelo significado e sentimentos que este texto carrega.
Parabéns ao meu irmão.
E obrigado por esta viagem ao passado. Parece que foi noutra vida. As coisas mudaram tanto.
Que saudades.
Um grande desgosto que eu tenho é o dessas três grandes referências das nossas vidas, que são os avós que já partiram, não poderem ver crescer e ajudar a crescer a minha nova vida que é o meu filhote.
O avô Esmeraldo nada a acrescentar disseste tudo expressaste tudo trouxeste por uns minutos o nosso querido avô à minha vida.
Obrigado Pedro
Obrigado Avô Esmeraldo
Sempre no meu coração.
Beijinho muito especial à minha MÃE, ela merece estas memórias,estas palavras.

P.S. : Desculpa Pedro nas vou só acrescentar as anedotas que ele tanto gostava e no fundo também fazem parte deste album...